Entrevista Especial: Setembro Amarelo.

No livro “Da tranquilidade da alma”, o filósofo estoico Sêneca trava um diálogo com Aneu Sereno, que reclama: “Eu não estou doente nem saudável”. E lhe pede ajuda: “Tire de mim, pois, esse mal, seja ele qual for. Rogo se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

Durante o longo período no qual a humanidade sofreu com a pandemia da Covid-19, emoções como solidão, angústia, medo e ansiedade tornaram-se nossas companheiras. Alguns se sentiram “nem doentes nem saudáveis” e muitos sofreram – e ainda sofrem – com essa falta de “paz de espírito”.  A pesquisa realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com 17,5 mil pessoas, rastreou a existência de depressão, ansiedade e/ou estresse pós-traumático na população brasileira devido à pandemia mostrando a incidência maior de transtornos mentais entre as mulheres (71,9%) e a ansiedade afetando 86,5% dos entrevistados. Outro estudo da Universidade Federal de Pelotas mostrou que pessoas que foram diagnosticadas com depressão subiram de 9,6% antes da pandemia para 13,5% em 2022.

Nessa entrevista especial da Revista Esfinge, neste mês em que se promove a campanha do Setembro Amarelo como prevenção e combate ao suicídio, convidamos Bernardo Norat e Valéria Canecchio para falar sobre como devemos lidar com emoções e sensações ruins que afetam a nossa saúde mental.

Bernardo é médico, diretor do Instituto Seraphis no Brasil – instituto que reúne profissionais da área da Saúde que estudam a Medicina e a Saúde pela perspectiva integral, humana e alinhada com à natureza e seus ciclos. É também diretor da Nova Acrópole em Uberaba (MG). Valéria é psicóloga, mestre em Ciências da Religião, diretora da unidade Zona Sul da capital paulista e coordenadora das escolas da capital, grande São Paulo e litoral paulista da Nova Acrópole.

Em nosso diálogo, os filósofos acropolitanos se inspiram em Platão e tantos outros mestres da sabedoria para dialogarem sobre saúde mental e bem-viver. Acompanhem.

“A incerteza sempre existiu, mas o ser humano estava muito certo do dia de amanhã

em uma certeza fictícia apoiada em um castelo de areia.”

Bernardo Norah

Bernardo traz uma reflexão interessante para explicar esse aumento no número de casos de depressão e ansiedade. Para ele, a visão contemporânea da vida, que se baseia na ideia de caminhada para um progresso interminável, leva a uma expectativa equivocada de que está tudo certo. Uma certeza que pode levar-nos a um automatismo da vida que não percebe que as incertezas são naturais. “A natureza e o Universo têm os seus ciclos: tudo é mudança: das estações, do nosso corpo fisiológico”, diz. E, quando uma crise – um problema financeiro, de saúde ou qualquer outra questão mais séria –, aparece para abalar essas certezas, as pessoas tomam um susto. “Há pessoas mais sensíveis a esses ciclos, não sabem lidar com as emoções que essas situações de estresse geram. Isso causa a ansiedade que pode levar a um estado de queda de ânimo que, somado a um fator fisiológico ou patológico, afeta a saúde mental de forma negativa levando à depressão”, explica.

Valéria afirma que a falta de entendimento e aceitação dos ciclos da natureza causam uma busca desesperada por uma qualidade de vida incompreendida. “Elas ouvem: fazer ginástica faz bem. Daí, elas quase se matam de tanto exercício. Ouvem sobre alimentação saudável: então, migram para dietas da moda. Ouvem que não têm o corpo perfeito, daí não aceitam o ciclo da idade, não aceitam a velhice. Há uma busca pela perfeição que não existe nesse mundo”, conta.

Além disso, há o desejo do controle: controlar para ter bom cargo na empresa, para ser bom pai, mãe, filhos, cônjuges e para poder cumprir com tudo que é chamado de sucesso. Dar conta de tudo isso esgota a saúde mental porque busca-se um controle de tudo e perde-se o controle de si mesmo. “Essa necessidade artificial e impossível vai criando uma descompensação psíquica desgastante, uma psique descontrolada que resulta na ansiedade desequilibrada que adoece”, diz Valéria. “A psique faz coisas com o ser humano que degrada a vida dele. Então, doenças como depressão, ansiedade, fobia, todas as síndromes que a gente conhece estão muito ligadas a isso quando não conseguimos colocá-la de volta em direção superior”, completa.

“A nossa educação é para a gente aprender a fazer coisas. Não aprendemos a entender e trabalhar com as nossas emoções, com as nossas faculdades mentais.”

Bernardo Norah

Para os filósofos gregos, o ser humano é resultante da síntese de Soma (corpo), Psique (mente/emoções) e Nous (espírito/inteligência). Soma é mortal e corruptível. Nous é a Razão pura e incorruptível. Já a Psique, representada com asas de mariposa, pode ser contaminada e perder a sua semelhança com o celestial, caso se torne escrava dos apetites do corpo. Ou, poderá tornar-se ainda mais divina, se trabalhar arduamente ao ser submetida às provas da vida. É, portanto, inconstante, podendo ser elevada ou inferiorizada, se não estiver em constante atenção.

Precisamos, então, de uma formação, de uma educação que nos ensine como lidar com emoções que desestabilizam a psique. “Concentração, atenção, imaginação, inteligência, temperamento, caráter. Um desenvolvimento interior que forneça um fortalecimento lógico mental que ajude o ser humano a lidar melhor com essas questões. Claro que não devemos negar os casos de doença mental que pode ser de nível genético e físico, os quais a pessoa precisa de atendimento de um especialista. Mas, às vezes, a pessoa passa por crise de ansiedade e ninguém nunca a ensinou a fazer uma respiração profunda, um exercício simples que pode ajudá-la a suportar aquela crise”, ensina Bernardo.

Pelo contrário, a sociedade contemporânea volta-se para o uso exacerbado de medicação, que adormece os sintomas, sem de fato, tratá-los. É um sintoma da nossa sociedade: não enfrentar a dor. “A vida atualmente é muito analgésica. Qualquer dorzinha, qualquer febre é combatida com medicação. É normal uma mãe não saber em casa lidar com uma febre baixa. Há décadas, se sabia fazer um banho. Esse mundo no qual não se pode ter nenhuma dor, nenhum sofrimento, somado a toda uma excitação de informações do digital, propicia um desequilíbrio emocional que afeta adultos, jovens e crianças”, explica Bernardo. “E, se não existe uma educação psíquica, existe o controle das emoções pela medicação. E, como o aparelho psíquico não é concreto, não há remédio para psique, mas para o corpo. A medicação ou a droga – em alguns casos –, tentam consertar todas as debilidades físicas causadas pela depressão”, completa Valéria.

“Como é que você vai mudar sem sentir dor? A dor passa se a gente a curar, mas você tem ferramentas para curar sua dor?

Valéria Canecchio

Essa pergunta que Valéria faz nos lembra o ensinamento de Sidharta Gautama, o Buda: a dor é um veículo de consciência. Mas, precisamos de orientação e auxílio para compreendermos esse ensinamento e nos fortalecer para enfrentar e curar a dor. Precisamos, assim, dos mestres de sabedoria. “Por exemplo, Platão fala das enfermidades do corpo e das enfermidades da alma, que são fruto da ignorância”, lembra Bernardo. Ignorância exemplificada no mito da caverna, lembra Valéria: “as pessoas estão olhando algo para fora delas e não existe uma reflexão daquilo que elas podem realmente desenvolver internamente”.

Em diferentes obras, Platão propõe métodos para educar nossas emoções e nossa mente. Ele nos ensina que para lidar com as circunstâncias das incertezas da vida, é preciso ensinar as pessoas a lidarem não só com o sofrimento físico, mas também com o sofrimento da alma – a tristeza, o medo, a raiva. Para as doenças da alma, ele indica um tratamento inspirado pelas musas: a Arte. “Música, poesia, literatura, teatro. Um conhecimento filosófico das artes como um veículo de autoconhecimento e desenvolvimento dos valores humanos. Esse é um processo que gera fortalecimento interior para vencer as fragilidades da alma”, explica Bernardo. Um legado platônico que atualmente inspira arteterapia, música-terapia e a filosofia como conhecimento de si mesmo.

Para o sofrimento físico, exercícios e alimentação saudável, ambos fundamentais para o tratamento e prevenção de doenças crônicas, como a depressão e ansiedade. E, é bom lembrar aquela velha máxima grega: nada em excesso! “Evitar a gula e o desejo. Hoje, sabemos que o consumo de açúcar, um estimulante, deve ser evitado em estados de ansiedade. Que frutas e verduras produzem vitaminas e proteínas boas à saúde mental. E, vejam que curioso:  arroz com feijão, ótima fonte de triptofano, elemento ligado à bioquímica dos transtornos da ansiedade e da depressão. Alimento que, atualmente, com a mudança da alimentação da população, deixou de ser consumido com frequência. Para Platão, somente em último caso é indicado o recurso da medicação”, diz Bernardo.

Nossos filósofos acropolitanos lembram que a educação platônica se inicia já na infância, a qual, em um ambiente controlado, as crianças aprendem a lidar com as experiências do sofrimento, da perda, do incômodo, da ansiedade. E, conduzidas por educadores bons e experientes, aprenderiam a evitar e/ou lidar com as doenças da alma e do corpo com qualidade emocional. “A gente precisaria dar às nossas crianças e adolescentes, uma referência de como lidar com a vida. A depressão e ansiedade que estão afetando esse público atualmente estão relacionadas com a falta de preparo emocional para o enfrentamento da responsabilidade que vem com a mudança natural dos ciclos. E, nem famílias e professores estão preparados para isso, porque também estão sofrendo. Platão diz: tem que brincar muito e contar muitos mitos para o desenvolvimento do aparelho psicológico e descoberta das ferramentas interiores”, explica Valéria.

“A filosofia se propõe a levar o ser humano a um estado de equilíbrio porque nos possibilita, realmente, a lidar com uma série de questões nossas. É uma ótima ferramenta nesse processo de conhecer a si mesmo, de formação interior, de desenvolvimento de virtudes e valores que nos ajudam a lidar com as questões da psique.”

Bernardo Norah

Mas, como conquistar esse estado de equilíbrio? Para Valéria, buscando uma harmonia na vida, equilibrando as coisas da vida pela via do desenvolvimento interior: “acreditar que podemos ser melhores, mais justos conosco mesmos, com os demais e com a vida e, assim, colocar as coisas, pensamentos e emoções em seu devido lugar”. Dar as coisas o que lhes é de direito? Assim é a Justiça para Platão. Um exemplo? Ambos os professores concordam que devemos evitar guardar remorsos e ressentimentos e não fugir dos fatores estressantes. Se tiver algo nos deixando ansiosos ou deprimidos, temos que refletir e dialogar sobre isso. Sabemos que não é algo simples, mas como o conhecimento filosófico nos ensina, vamos ter que aprender a fazê-lo. “A filosofia não vai trazer respostas prontas ou fechadas sobre as incertezas da vida. Mas, vai propor um exercício de reflexão e de investigação que nos ajuda a encontrar algumas respostas e a estabelecer degraus para seguir adiante”, coloca Bernardo.

E como podemos ajudar pessoas que estão em sofrimento? À maneira acropolitana, devemos agir com a filosofia prática. Os nossos entrevistados orientam:

  • Quem está sofrendo emocionalmente, não deve se isolar. Pelo contrário, busque uma pessoa de confiança que possa dialogar;
  • Busque rodear-se de Beleza e de Alegria: coisas alegres e elevadas como músicas, leituras filosóficas, poesias e conversas trazem um bom ânimo;
  • Da mesma forma, ative o físico: exercícios de alongamento e relaxamento ajudam a concentração e aquieta a mente.

E, para aqueles que convivem com pessoas fragilizadas emocionalmente, é importante sermos solidários, mas também, voluntariosos, ou seja, sermos um fator de soma para a sua fortaleza emocional. Assim, devemos ser um ponto de atenção, compreensão e ajuda:

  • Evitem os julgamentos, dizendo que é frescura ou preguiça. Ou que “só disse aquilo da boca para fora”;
  • Não ignorem os sinais: prestem atenção se a qualidade de vida da pessoa está piorando – falta de apetite, insônia, solidão, humor deprimido, cansaço, tristeza constante, falta de prazer nas coisas que sempre gostou ou agressividade;
  • Na dúvida, buscar orientação profissional. Não deixe a situação agravar.

Retomando a obra de Sêneca, o estoico diz a Sereno que ele busca a coisa mais importante da vida, a tranquilidade, assim explicada: “o que buscamos é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será tranquilidade”.

Uma busca do ser humano de hoje, de ontem e do amanhã. Que bom que temos mestres, sábios e filósofos que nos mostram que o “remédio para deter a vacilação” pode estar na Filosofia, no autoconhecimento e fortalecimento interior. Um bom trilhar nesse rumo firme da tranquilidade da alma, da saúde mental e de um bom viver. Por isto, agradecemos!

Autor

Revista Esfinge